Globalização A culinária no mundo sempre foi pautada pela diversidade de produtos. Além disso, os pratos típicos de cada região representam e resumem culturas e aspectos sociais que, de outra forma, não seriam percebidos. A natureza foi generosa, não poupou esforços para agradar o mais refinado dos gourmets. Da terra, brotaram milhares e milhares de diferentes tipos de vegetais, quase todos comestíveis e representantes fiéis do lugar que os originou. E a abundância não ficou restrita às verduras: um sem fim de animais cresceu, alimentou-se e serviu de alimento nesta mágica, caótica e frenética cadeia que nos mantém até hoje.
Fala-se muito de “slow food” nos dias de hoje. A grande maioria das pessoas acredita se tratar do retorno dos longos rituais envolvendo as refeições. Seria uma volta ao prazer perdido de se fazer um jantar entre amigos sem pensar no tempo, escasso como inhame, nestes dias acelerados do “fast tudo”. Tudo bem, está correto, uma boa refeição, de fato, necessita, como ingrediente básico, de tempo para curtir (e digerir) o momento. Contudo, o termo é bem mais abrangente. O movimento busca resgatar hábitos mais saudáveis e menos agressivos à natureza. Um bom prato “slow food” deve conter ingredientes locais e que respeitem a sazonalidade. O fomento ao retorno das diversidades é uma de suas principais bandeiras.
Qualquer lugar do mundo, com um pouco de chuva, possuía uma infinidade de produtos alimentícios gerados ali, consumida por pequenos grupos que se identificavam também pelas diferenças gastronômicas. Hoje, com o avanço da globalização em todos os níveis, hábitos alimentares ancestrais estão desaparecendo rapidamente. Cerca de 30 tipos de legumes representam a maior parte do consumo mundial. Pense: quantos e quais legumes habitam sua geladeira hoje? Mais, tente lembrar quantos nomes de legumes você conhece. Estamos observando a destruição da identidade de inúmeras sociedades por meio do empobrecimento de suas respectivas culinárias. Abrimos mão de tantos sabores, aromas e texturas, para termos acesso à comida feita em série e que pode (e deve!?) ser encontrada em cada canto do globo. Eis o que comemos: batata inglesa, cebola, alho, cenoura, beterraba, abóbora, vagem, arroz, trigo, soja, milho, etc. Claro, existem outros tantos, mas não são uma enormidade. Outra coisa, cada um desses itens elencados acima, possui inúmeras variedades.
Numa viagem ao Vietnã, pude perceber o quão nocivo pode ser o câmbio de hábitos alimentares milenares por outros, levado pela sedutora onda globalizadora. O país, conhecido pela riqueza de sua culinária de rua, é, sem dúvida, um show de cheiros e sabores. Há uma enormidade de ervas, pimentas e raízes, que dão caráter próprio àquele lugar. Lá, todos são magros e longevos. Alimentam-se diversas vezes por dia. Muita sopa de vegetais e, o mais interessante para nós ocidentais, quase não comem doce. Sobremesa é, invariavelmente, fruta. Compram-se, de ambulantes, galhos com frutas ainda penduradas (por favor, não perguntem o nome) e come-se como “snack” perambulando pelas entupidas ruas.
Pude testemunhar a entrada e o frenesi criados pela chegada de uma das primeiras franquias de fast food ao Vietnã. Fotos de crianças com sanduíches e sorvetes descomunais nas mãos ilustravam a matéria no principal jornal de Hanói. Estava completamente acostumado a ver essas lanchonetes no Brasil, nunca me ocorreu que algo muito importante havia sido quebrado com sua entrada maciça. Hoje, depois de observar uma cultura ainda virgem e claramente mais sadia que a nossa, pude perceber como tais mudanças sem um critério mais rígido para sua implementação pode ser destrutivo em vários níveis. Seja bem vindo, Vietnã, agora você faz parte do mundo globalizado da comida.
Edson Monteschio


